Mercado Europeu de Usados dá Sinal de Alerta com Stock a Acumular nos Stands
O mercado de veículos usados ainda não baixou a tabela de preços, mas o sinal de alerta já acendeu nas garagens e nos parques dos concessionários europeus. Os carros estão a demorar mais tempo a sair do stand. E quando o stock encrava, a pressão financeira sobre os comerciantes costuma vir logo a seguir.
O desequilíbrio mais evidente está nos seminovos. As viaturas com até dois anos representam 39,89% de tudo o que está à venda na Europa, mas não vão além dos 30,12% das transações efetivas. Ou seja, há ali quase dez pontos percentuais de margem a travar a liquidez do negócio.
No extremo oposto, a história é outra. Os automóveis com cinco ou mais anos correspondem a 37,04% da oferta e garantem 44,78% das vendas. O cliente final procura preço e foge da desvalorização inicial.
A culpa desta paragem nos mais recentes não é da falta de interesse nos modelos. O problema chama-se concorrência do carro novo. Com os fabricantes a carregar em campanhas, descontos e taxas de financiamento bonificadas, a diferença financeira para comprar um seminovo deixa de compensar.
Entretanto, o tempo médio que um carro passa em parque antes de encontrar comprador — o chamado Market Days Supply (MDS) — subiu em todas as frentes. Os híbridos ligeiros (MHEV) são os que demoram mais a sair, com uma média de 92 dias, impulsionados pela vaga de viaturas que saíram das linhas de montagem nos últimos três anos e que chegam agora em massa ao mercado de ocasião. Seguem-se os híbridos plug-in com 87 dias, o Diesel com 80 e a gasolina com 73 dias.
Os elétricos a bateria (BEV) continuam a vender acima da sua representatividade de stock — garantem 10,66% das vendas para uma oferta de 8,86% —, mas perderam o fôlego excecional que registaram durante a Primavera. Se há uns meses um elétrico demorava cerca de 47 dias a ser vendido, a média atual bate nos 68 dias. O índice de preços de retalho dos BEV fixou-se nos 64,46% em relação aos valores pré-pandemia de janeiro de 2020.
“Os elétricos demonstraram que existe procura quando o preço atinge a realidade económica do comprador, mas os dados de setembro mostram também que nenhuma motorização está isolada da dinâmica de stock”, explica Yoann Taitz, responsável de previsão de valores residuais e especialista do Indicata. “Uma viatura pode continuar a vender relativamente bem e, em simultâneo, acumular mais dias em parque. O indicador crítico agora não é apenas a quota de vendas, mas a velocidade a que o mercado absorve o volume sem exigir novos cortes de valor.”
Para os operadores nacionais, este fosso entre o stock de viaturas recentes e a capacidade real de compra do mercado exige atenção redobrada. Se os carros com menos de dois anos ficarem parados demasiado tempo, o reposicionamento forçado de preços vai arrastar os valores dos carros com três e quatro anos. Num setor onde ter capital imobilizado custa dinheiro todos os dias, agir rápido na rotação pode ser a única forma de evitar perdas maiores à frente.
#ANECRARevista #ANECRA #Automovel #Usados #Seminovos #MercadoAutomovel #Indicata #ValoresResiduais